Como muitos viram no Twitter, fui à Bienal no primeiro dia. Minha mãe ganhou uns convites que nos fariam entrar de graça e eu vi que o Michel Melamed estaria no Café Literário, então fui. Alguns dias antes, ao contar meu dinheiro reservado para a Bienal e descobrir que ele era muito pouco para a quantidade de livros que eu pretendia comprar, resolvi procurar minha wishlist na Estante Virtual. Estavam todos lá:
- O homem da mão seca (Adélia Prado);
- Cascos e Carícias (Hilda Hilst);
- O lugar escuro (Heloisa Seixas);
- Risíveis amores (Milan Kundera);
- Trópico de Capricórnio (Henry Miller);
- Cartas de aniversário (Ted Hughes).
Só quem não estava lá era o Michel Melamed, como eu esperava, de modo que fui à Bienal naquela quinta-feira decidida a comprar o livro na Objetiva. Seria tudo muito fácil: caso o livro não estivesse lá, eu pediria ao próprio Michel no fim da palestra.
Fui direto ao Café Literário, onde peguei a senha. Ainda faltava uma hora. Vi o Michel Melamed passando, mas fiquei tímida de sair falando com ele sem ir olhar na editora antes. Fui até a editora. Uma mocinha se aproximou:
- Boa noite.
- Boa noite. Eu to procurando um livro do Michel Melamed.
- Quem?
- Michel Melamed.
- Qual o nome do livro?
- Regurgitofagia.
Ela fez cara de "fudeu".
- Ficou mais difícil com o nome do livro, né? - sorri.
- Vem cá. Fala aqui o nome pra ele.
- Regurgitofagia.
O rapaz riu:
- Porra!
Ri.
- Quem é o autor?
- Michel Melamed.
- É francês isso?
- Não, ele é brasileiro. Ele inclusive ta por ali.
- Quem? - perguntou a mocinha.
- O autor.
O rapaz voltou:
- Qual é o nome do livro mesmo?
- Regurgitofagia.
Abriu um bloquinho e começou a procurá-lo em ordem alfabética. Não encontrou. Achei melhor perguntar:
- Mas simplesmente não tem o livro aqui ou ele ta esgotado?
- Não sei, vem cá, que o
[insira o nome do fulano aqui] deve saber. Fala o nome aí pra ele.
- Regurgitofagia.
Três, além da mocinha e do rapaz, riram.
- Como é que é?
- Regurgitofagia.
- De quem é isso?
- Michel Melamed.
- Nossa, NUNCA ouvi falar.
Sorri.
- É Re- o que mesmo?
- Regurgitofagia.
- Fala aqui com o
[insira nome do fulano que tinha cara de dono do lugar]. Fala pra ele.
- É um livro do Michel Melamed...
- Regurgitofagia...
- Isso!
- Ta esgotado. Acho que o autor ta até pra lançar por outra editora.
- Então, não tem mais como conseguir? De jeito nenhum?
- Olha, o autor ficou com uma tiragem bem grande, então, você deve conseguir falando diretamente com ele.
- Ah, tudo bem, então. Brigada.
E saí em busca de Michel Melamed, de um banheiro e de minha mãe, que a essa altura estava desaparecida. Como não encontrei ninguém, fui pro Café Literário ficar sentada sozinha, anotando no bloquinho as editoras que eu pretendia visitar quando voltasse lá. A palestra começou. Além de Michel Melamed, tínhamos também Santiago Nazarian (de quem eu nunca tinha ouvido falar, mas por quem muito me interessei) e Cecília Gianetti (a quem não identifiquei de nome, mas depois lembrei já ter lido o início de seu livro na Nobel do Nova América, em um dos atrasos do Gabriel).
Tudo muito bom, eis que acaba a palestra, com Michel Melamed e a mediadora anunciando que o livro dele estava no stand da editora Objetiva. Andei até os dois e disse:
- Não ta, não.
Michel:
- Não?
- Não. Eu tive que falar o nome do livro pra cinco pessoas diferentes e ninguém sabia de nada.
Fez cara de "é, então, não tem nada que eu possa fazer".
Olhei pra super mala feminina dele e perguntei:
- E você não tem com você, não?
- Não... Eu até tenho o livro ainda, a editora me deixou com parte dos livros pra eu poder vender em apresentações, mas como hoje era só um debate, não era uma apresentação, eu não trouxe.
Aos escritores DO MUNDO: sempre ande com um exemplar do seu livro.
- Eu to tentando comprar esse seu livro há MUITO tempo. Mas ele não tem em lugar nenhum e eu nunca consigo ir à nenhuma apresentação, eu fico sem livro.
- Poxa, cara... Desculpa.
- Nunca vi isso. Eu querendo dar dinheiro e não consigo.
- Então, me dá dinheiro!
- Mas você não vai me dar o livro, então fica desigual.
- Desculpa, meu amor.
- Eu supero.
Assim, eu, o amor do Michel Melamed, fui até Cecília Gianetti. Eu estava decidida a sair de lá de dentro com pelo menos um livro.
- Cecília!
- Oi.
- Onde eu consigo comprar o seu livro?
- No stand da Ediouro/Agir.
- Ah ta bom, brigada.
- Brigada, querida.
Como foi a mediadora da palestra quem disse que o livro do Michel estaria no stand da Objetiva, achei que ela podia ser conhecedora de alguma informação obscura que nos tinha escapado. E fui até o stand da Objetiva de novo.
Uma menina se aproximou:
- Oi.
- Oi. Eu vim aqui mais cedo procurando um livro que não tinha, mas agora talvez tenha.
- Qual o nome do livro?
- Regurgitofagia.
- Quê?!
- Regurgitofagia.
A menina pegou o bloquinho.
- Não ta aí, não. Isso eu vi mais cedo.
- Ah, se não ta aqui, então, não tem não.
- É que eu tava no Café Literário agora e o autor disse que tinha aqui pra vender.
Ok, não foi bem isso que aconteceu, mas era muito mais fácil assim.
- Ah, deixa eu ver com o
[insira nome do fulano com cara de dono].
Os cinco que tinham me atendido anteriormente riram pra mim.
- É, voltei.
O moço com cara de dono me reconheceu e já fez cara de não.
- É que eu falei com o autor agora e ele disse que tinha aqui.
Ele continuou com cara de não.
- Então, não aconteceu nada de extraordinário nesse meio tempo, né?
- Não, o livro ta esgotado.
- Ta, ta bom, brigada.
Olhei o mapa. Onde ficava a Ediouro/Agir? Exatamente em frente ao Café Literário. Voltei pra lá. Estava com pressa.
- Oi, boa noite. Eu preciso comprar um livro correndo. A autora é Cecília Gianetti.
- É dessa editora mesmo?
Não, eu sou maluca.
- Sim.
Andamos até o computador.
- Qual é nome da autora?
- Cecília... Gê, i... Não, Gê, Gê, Gê. Isso é um jota.
- Ah, desculpa.
E apagou todo o nome.
- Vou escrever Cecília sem acento.
Sorri.
- Gê, i, a, ene, é, tê, tê, i.
Nada foi encontrado.
- Ué. Eu acabei de falar com ela e ela disse que tinha o livro aqui.
- Ela quem?
- A autora, ela ta ali.
- Ah. Qual o nome do livro?
- Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi.
- Nome interessante, né?
Sorri.
Nada foi encontrado. Voltei pra casa sem nenhum livro na mão, mas decidida a voltar à Bienal no domingo pra ver a Heloisa Seixas no Mulher e Ponto. Eu aproveitaria pra comprar o livro da Cecília Gianetti. O Michel? Ficou pra outra oportunidade.
Enquanto isso, os livros da Estante Virtual. Desisti de comprar o da Hilda Hilst, já que ele é fácil de encontrar novo, por um preço semelhante. O vendedor do Milan Kundera desistiu de mim e eu resolvi não correr atrás. O vendedor do Ted Hughes (o mais importante, fora de catálogo, bilíngue, carésimo) disse que estava com problemas no e-mail. Fiquei com medo de pagar e depois não receber.
No domingo, antes de ir para a Bienal, eu e Gabriel paramos no Banco do Brasil. Pagamos o Henry Miller, a Heloisa Seixas e a Adélia Prado. Nós chegaríamos à Bienal às 16h, pegaríamos a senha pra palestra das 17h e iríamos olhar os stands nessa hora vaga. Eu iria até a Record perguntar pelo Ted Hughes. Na última Bienal, cheguei tarde demais: eles só tinham levado um livro e ele já tinha sido vendido (por 60 reais). Quem sabe dessa vez eu chegava a tempo?
Chegando ao Rio Centro, vimos um fila enorme e absurda de carros. Conseguimos furar a fila de carros, mas, pra entrar no estacionamento em si, também havia uma fila medonha. À direita, estacionamento normal de 12 reais; à esquerda, estacionamento com manobrista de 20 reais. 15:50h. Resolvemos pagar a mais para que eu não perdesse a Heloisa Seixas. Assim que chegamos à bilheteria, levamos um susto com a QUANTIDADE de gente que estava lá. Fila maior que a do Radiohead. Depois soube que a Meg Cabot estava lá, Talita Rebouças também... Depois de darmos voltas e voltas tentando encontrar o final da fila, decidimos jogar nossos 20 reais no lixo: fomos embora. Não tinha condições.
Mas tudo bem: na quarta-feira, 16, iríamos de graça com a escola. Tudo combinado. Aí, segunda de manhã, Gabriel me fala:
- Acho que não vou com você à Bienal na quarta, não. Senão, não vou poder dar aula pro pai do Ricardo.
Fiquei puta, porque eu não queria ir sozinha se eu só pretendia comprar dois livros e teria hora pra ir e voltar. E ainda teria que sair mais cedo da aula de português. Decidi não ir, mas não falei nada. Achei melhor procurar o Ted Hughes na Estante Virtual outra vez e, caso não o encontrasse, pedir à minha mãe que perguntasse por ele no stand da Record. A Cecília Gianetti? Ficou pra outra oportunidade.
Terça-feira, Gabriel me liga e fala que desmarcou a aula e que vai comigo à Bienal. Àquela altura, nem eu queria mais ir. Mas isso me lembrou de procurar o Ted Hughes de novo, coisa que eu tinha me esquecido de fazer. E lá estava, edição bilíngue, por 17,50 dinheiros... na BERINJELA! Peguei o telefone na hora.
- Livraria, boa tarde.
- Boa tarde. Eu tava procurando um livro na Estante Virtual e vi que vocês têm aí, então, como eu moro no Rio, queria saber se tem como separar pra mim e eu vou aí amanhã comprar.
- Tem, claro. Qual o nome do livro?
- É Cartas de aniversário, do Ted Hughes.
- Ted Hughes.
Assim. Nem precisei soletrar.
- To com ele nas minhas mãos aqui.
- Então, pode separar, que amanhã eu vou aí.
- Qual o seu nome?
- Laura.
- Tudo bem, Laura, ta separado aqui.
- Brigada, boa tarde.
- Boa tarde.
E foi assim que não fui à Bienal hoje.
Cheguei à Berinjela, pensando: "Será que o vendedor incrível, sensacional, lindão, que me atendeu da última vez vai estar lá?". Sério. O cara era tão bonito e meu tipo que eu até comprei presente pro Gabriel.
Entrei. Um magrelo alto de camisa cinza (completamente meu tipo se eu fosse solteira) me olhou com cara de expectativa.
- Boa tarde.
- Boa tarde.
- Eu falei com alguém por telefone ontem... - ele sorri - e pedi pra separar um livro pra mim...?
- Qual o livro?
- Cartas de aniversário, Ted Hughes.
- Foi comigo mesmo. Ta aqui seu livro. Laura.
Paguei, recebi troco, saquinho e fui olhar a loja. Não resisti:
- Por que que ele ta tão barato? Ninguém sabia que esse livro custa 60 reais?
- Não, a gente sabia, claro. A gente pesquisa, vê quanto é o livro novo... mas como aqui a gente trabalha com livro usado, a gente tenta sempre vender a partir da metade do preço, mesmo que esteja em bom estado.
Não entendi nada. Não entra na minha cabeça como um livro NOVO (porque ele está NOVO) passa de 60 reais pra 17,50. Mas fico feliz.
Agradeci ao simpático vendedor e vim-me embora.
Saldo da Bienal sem Bienal: todos os livros que eu queria +1 -1. Michel Melamed fica pra próxima oportunidade e Cecília Gianetti fica pra próxima espera no Nova América.